Sobre bicos (chupetas) e o Papai Noel

Nessa época é muito comum encontrarmos crianças dando seus bicos (chupetas) para o papai Noel. E muitos pais passando um perrengue danado depois de feito, com crianças chorando arrependidas. Momento delicado e, para algumas famílias, desesperador pois entregam o bico para o bom velhinho e depois não sabem como agir.
Pois bem, vou contar a nossa experiência, mas aqui foi com o coelho da Páscoa. 

  
A Lelê (minha filha Helena), chupava bico desde os três meses. Nasceu em junho de 2012 e na Páscoa desse ano estava com dois anos e dez meses. 
Eu e o papai havíamos combinado que ela chuparia bico até mais ou menos os três anos, idade que nos foi orientada por fonoaudióloga e odontologista como indicada para suspender o uso. Então, começamos a preparar o terreno bem antes. 
Uns meses antes comprei um livrinho, de nome Adeus Chupeta (mas tem vários bem bacanas). E essa virou nossa leitura, quase obrigatória, na hora da historinha. 
Inicialmente havíamos combinado que o bico seria dado para o Papai Noel, mas nunca senti muita segurança na decisão (nem do papai, nem da Lelê). Chegado o Natal, ela desistiu. E combinamos então que o bico passaria a ser usado apenas para dormir e andar de carro. E assim foi feito: nada de bico na casa dos amigos, nada de bico na hora de brincar…(aqui nunca foi permitido ficar todo tempo de bico, então a mudança foi bem pouco radical). 
A Lelê queria muito um boneco daquele porquinho do desenho, então fizemos nossa primeira tentativa: o porquinho em troca do bico. Saímos felizes do supermercado, ela agarrada no porquinho e eu com o bico escondido na bolsa. Durou pouco, uma noite, pra ser mais exata. Muito choro na hora de dormir, pedidos desesperados pelo bico, vários argumentos por parte dela e…meu marido cedeu! Sim, aqui em casa o “querido” é o papai e a “durona” sou eu. Mas eu também não estava certa de que aquela era a hora, já que a decisão de deixar de chupar o precioso bico tinha sido totalmente induzida por nós. Vida que segue e segue com muita leitura do tal livro do adeus ao bico…. E a combinação de que a partir daquele momento o bico só seria usado a noite, na cama. E assim foi feito, nada de bico nas sonecas (combinei na escola e depois de alguns dias não mandei mais), nada de bico no carro…bico somente na cama, na hora de dormir.
E muito blá-blá-blá sobre o quanto o bico pode estragar os dentinhos, o quanto menina grande não usa bico, que as princesas não chupavam bico… E a Páscoa chegando e o coelho da Páscoa cada vez mais presente nas nossas falas: o que será que o coelho vai trazer pra Lelê? Será que a Lelê foi comportada o suficiente pra ganhar muitos presentes? (Somos consumistas sim, aqui, Natal, Páscoa…são festas com pouco – ou nenhum- conteúdo religioso).
E na véspera da Páscoa, enquanto colocávamos a cestinha vazia na janela para o Coelho pegar, a Lelê determina : “- vou colocar ai meu bico pro coelho levar!”. Correria à cata de todos os bicos espalhados pela casa (tínhamos vários, porque eles sempre sumiam na hora que mais precisávamos). Bicos colocados na cesta para o Coelho e vamos dormir, eu e o papai esperançosos e apreensivos. E ela deitou na sua cama, como de costume. Contamos (pela enésima vez) a história do livro. E “nanamos” ela, como de costume, e ela dormiu falando no Coelho da Páscoa.

  
Na madrugada ela me chama, pergunta do bico… Digo que o Coelho deve ter levado. Nano ela um pouquinho e ela volta a dormir. No outro dia, pouco antes da seis, escuto seus passinhos pela casa. Levanto e a encontro procurando a “cesta do Coelho”. Quando encontra, decepção total: “-onde estão os bicos????”! Chora, nem da bola pra cestinha. Eu, começo a pegar os doces e falar seus nomes”-oba, bananinhas (como chamamos as mariolas)!, que delicia, tem suquinho! “. E ela ali, num misto de curiosidade e decepção. De repente, ela vem se chegando, olha o pacote de presente e acha a cartinha (escrevi uma cartinha do Coelho ora ela, agradecendo pelo bico, que ele levaria para os filhinhos das fadas que estavam sem bico e que em troca havia trazido um presente pra ela). Eu leio e ela escuta atenta. Pergunta do presente e eu entrego o pacote (compramos uma boneca daquele outro desenho que os pôneis são meninas). Ela fica feliz com o presente, corre para mostrar ao pai e por algum tempo não fala mais no bico.
O dia foi cheio de surpresas, tive que ligar para minha mãe sumir com os bicos da casa dela também (eventualmente a Lelê dormia lá e tinha dois bicos). Quando viu a avó, logo pediu pelo bico. A vovó disse que o coelho tinha estado lá e contado que havia combinado com a Lelê levar todos eles, e que então, ela havia dado, mas tinha uma surpresa… E lá fomos nós atrás de mais uma cesta e a “cesta” era uma linda coelhinha (de verdade). A Lelê ficou eufórica com o bichinho e isso garantiu horas e horas sem lembrar do bico.

  
E a dinda chegou com outro presentinho e o dia passou, sem o bico.
Brincamos muito e a noite, já bastante cansada, dormiu no carro (ufa!). A tiramos passo a passo, subimos pro apartamento rezando para ela não acordar. É assim foi a segunda noite sem bico!
Depois disso, ela pediu algumas vezes, chorou uma ou duas outras vezes e eu sempre lembrava dos presentes, falava de como foi engraçado achar o presente do coelho na vovó… E assim passou o tempo e ela esqueceu o bico. E eu pensei que nunca mais compraria um bico.
Agora, faz uns meses, achou um, de quando era bebezinho (o primeiro que comprei e guardei de lembrança) e me perguntou se era dela. Eu disse que sim, que era dela quando bebê. E ela pediu pra usar…nas bonecas!!!! E já compramos alguns bicos novamente, mas para as “minhas netas”!
Agora, começamos o trabalho para com a mamadeira, mas não achei nenhum livro ainda, então o processo não está completo e isso tem dificultado nosso empenho e desempenho (kkkk) . A Lelê usa mamadeira apenas pela manhã e antes de dormir (e raramente quando pede muito – muito – muito, nos finais de semana, a tarde), mas já estamos tirando a mamadeira da manhã. Oferecendo o leite num copo de treinamento, ela as vezes aceita, às vezes pede a mamadeira, argumentando que ainda “não é menina grande, apenas é média”. Ou afirmando que já viu meninas grandes tomando mamadeira, então certamente as princesas também tomam mama quando estão no quarto para dormir, já que “aqui de casa ninguém nunca dormiu com as princesas para saber”! (Esse argumento, eu acho incrivelmente bem elaborado!). As vezes topa tomar na caneca daquela porquinha do desenho, às vezes não. 
Estamos iniciando a despedida do mama, acho que meu marido ainda não comprou a ideia, então o processo engatinha. Mas o prazo é o verão! Se não rolar no Natal, não vou para a praia com mamadeiras na mala! 
Não é um processo fácil, as crianças estão apegadas aos bicos e mamadeiras, e isso transmite segurança e tranquilidade a elas.

  
 Meu conselho, como psicóloga, é tomar a decisão e colocar em pratica, aos poucos, mas sem retrocessos! Estabelecendo regras e limites, reduzindo o uso devagarinho e não voltando atrás após as combinações (nenhuma vez, pois se cedermos podemos passar a ideia de que não estamos certos da nossa decisão e deixar a criança mais insegura). A criança com três anos já deve estar madura emocionalmente para construir alternativas para se sentir tranquila e protegida sem precisar do bico. Cada criança tem sim o seu tempo, porém, se tratando do uso do bico e da mamadeira (ou do hábito de chupar o dedo), temos que levar em conta a “data limite”. Pois além das questões emocionais, temos  os possíveis prejuízos causados no desenvolvimento da fala, da deglutição, da dentição, da respiração… Acredito que um papo com o ortodontista ou fonoaudiólogo ajuda a entender os prováveis (ou possíveis) prejuízos para o desenvolvimento da criança que têm hábitos de chupar dedo, bico ou mamadeira após os três anos de idade. Conversar muito com a criança sobre os motivos para não mais usar o bico, estabelecer uma data limite e respeita-lá, ajuda muito no processo! 

Minha dica como mãe é paciência, persistência e bom senso! E muita distração na hora do choro, mudar de assunto mesmo! Falar sobre outras coisas, convidar para brincar. Contar com o apoio de todos também é fundamental, pois ninguém deve ceder ou comentar que discorda da decisão dos pais. 
Enfim, como diz um amigo querido: #sigamos!
Tanise G.M.Bernardes, mãe da Helena (3anos e 5 meses), moderadora do CdM e psicóloga. 

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3 comentários

  1. Tanise, querida colega, belo depoimento do processo feito com a Lelê. Psicóloga extremamente competente, aqui mãe com anseios e buscas para o melhor no desenvolvimento da filha. Realmente,um processo que não é fácil e tampouco encontramos soluções únicas. Teu texto ilustra de forma muito simples como tamanha complexidade pode ser encarada naturalmente com o apoio da família e com
    orientações de profissionais da área. Forte abraço. Beijos na Lelê.

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  2. Oi! Sou do CdM, estamos em conversas sobre dar o bico para o papai Noel pelas mudanças que já percebemos nos dentinhos! Porém estou muito insegura com a decisão por vê -lá tão dependente do bico! Ela está com 2 anos e 4 meses e tem uma mana de 3 meses que não gosta de bico! Mas me pergunto será mesmo a hora? Como saber?! Quando está em casa conosco, sempre está pedindo o bico! E ela se consola muito facilmente com ele! Enfim, qual a maneira de saber a hora certa?
    Te agradeço se puder me ajudar!!
    Bjs

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    • Não tem “hora certa”, vai muito da nossa sensibilidade. Obviamente que no caso do bico temos a questão da dentição envolvida… Talvez responder algumas perguntas possa te ajudar: já consegue ficar longos períodos sem pedir o bico, consegue se acalmar sem o bico, consegue fazer sonecas sem ele, esquece ele nos lugares que vai? Podes começar diminuindo o uso. Restringindo a usar apenas em casa, na hora de dormir e observar como reage em outras situações e se pedir o bico, sempre lembrar da combinação de que o bico se usa somente em casa, na hora de dormir…

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